4.1.10

Meios para um fim

Todos, meios para um fim.

Os que sabem, pressentindo;

Os que não, são ignorantes,

E são mais do que os primeiros.



Sempre, meios para um fim.

Ou é fácil, ou cifrado;

Ou é frívolo, ou oculto;

Ou é reles, ou soberbo.



Porém, meios para um fim.

Ao forjar um “novo mundo”;

Ao dizer para as alturas;

Ao fruir um tenro amor.



Assim, meios para um fim.

“Livre arbítrio”, uma expressão.

“Liberdade”, uma palavra.

A angústia, uma certeza.

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30.1.08

crepúsculo

passam as nuvens em branco.

plácida vaga a jangada

e a noite abre-se funda.

negro fecunda em silêncio.



atracado, um barco estático.

deleitam-se deitados,

desnudos, daquele êxtase

efêmero e profano.



entidade, ser, presença,

dádiva macia e quente.

desfaz-se a carne em suor

por sobre dobras, entre as partes.



odores acres e duros

confundindo a firmeza.

calores açucarados.

quer-se mais, requer-se o eterno.



arqueados são os corpos,

cuidando-se para sempre.

colam-se, belas, as curvas

num infinito contido.

25.5.07

anversos

poema quer-se impessoal.

verso quer-se anti-verso.

lira, anti-lírica:

abertamente abstrata.


poema quer purgar emoção,

quer cuspi-la, vomitá-la,

modo qualquer de mandá-la embora.

verso quer-se mais que verso.


poesia quer, porém, alienar-se?

quer acaso seu ocaso?

quer conformar-se a ser

letras pretas, livros em branco?


- mundo tão imundo para ela.

céu vestido em cinza, gris.

sol em si mesmo absorto.

solo seco, estéril, morto.


realidade kafkiana,

pálida, anti-cálida.

paredes tão retas.

emoção? uma palavra apenas.

10.5.07

paranóia

luzes ruas esquinas das

cidades sustentam paranóias

invadem os corpos

alucinando os espaços


metrópoles devoram famintas

vestidas de Prada apressadas

indo para algum lugar

para onde corremos


humanos pixels pretos

aos milhões não significam

pessoas viramos números

multiplicados e divididos


luzes coloridas epiléticas

informações em terabytes

via internet sonhos virtuais

prontos para comer


paranóias metropolitanas

sustentando devoram

contatos mediados

por contratos abstratos


ao som tecno-ensurdecedor

ações sobem e descem

fazendo particulares

os delírios públicos


prazeres sob medida

concretos absurdos

monologam paralelos

sem nunca o tocar


7.9.06

A garota das pérolas

Eu sou o homem com cabeça de pássaro

Eu sou o homem com um pássaro na cabeça

Eu sou o homem com cabeça de pássaro correndo pelas ruas de uma cidade espanhola à beira mar porém seca e deserta.


O sol brilha forte.

O mar brilha forte.

O solo brilha forte.

Que maravilha.

Que sorte.


andaluzia red yellow red yellow black car red light far black place walls blue chair morocco e a garota com a pérola no olho na boca no pescoço

a garota das pérolas.


Eu sou o homem com cabeça de pássaro,

Correndo atrás da garota das pérolas.


Será ela naquela casa amarela?

Será a flor pintada na aquarela?

Será ela dependurada na janela?

Será a luz vertendo pela estreita viela?


O sol brilha forte.

O forte à beira mar brilha.

Pelo solo escorrem líquidas areias.

Sobre o mar flutuam salgadas pedras de água.

Um hálito de baunilha sopra suavemente do norte.


A garota das pérolas.

Ela se esconde lá,

Ela se esgueira ali.

Ora já a miro eu cá,

Ora salta e voa dali.


A boca cheia de pérolas

Ostra mediterrânea

Sereia do deserto

Vestido leve esvoaçante

Azul e amarelo misturados numa flor

Eis que repousa suas asas esplendentes

Tal esfinge grega ou grego enigma.

Escraviza-me com os olhos,

Amarra-me ao sopé de seu segredo.

Constrange-me até sugar meu sumo

E por fim despeja-me seu licor sagrado

Em gotas de extasiantes cristal.


A garota das pérolas

Preciosamente escondida

Sob suaves marolas

16.4.06

epifania cotidiana

bem almocei hoje.
comi pedras amarelas
de doçura insensível.
engoli cubos gelados,
cítricos, verdes.
fatiei folhas de alface
lambuzadas de azeite.
bem tomei o bom café,
preto e terreno.

após admirei
o branco, o azul.
a amplidão azul
vasta vasta vasta
como nosso mar do sul,
qual um anti-oceano,
oceano aéreo avoador,
espelhado, espraiado.
mosaico etéreo
de contra-pedras brancas,
irregulares
recifes errantes.

eis-me ora perdido
no espaço morno
duma epifania cotidiana.
o sol derretendo-se tal mel,
esbraseando-se nos lábios
luxuriantes de uma brasileira
inebriada de volúpia.
essa a epifania
viva, verde e verdadeira.
essa a epifania possível,
ungida com o perfume fácil
de um xampu barato.

de longe, uma igreja pálida,
templo calvo e estéril.
símbolo esdrúxulo
de uma época pré-científica.
(quis chorar mas não consegui)

já minha epifania
cética
antropocêntrica
racionalista
iluminista
positivista
tecnológica
globalizada
internética
- ainda uma epifania?

o concreto riscado
pelo cinzel abstrato.
o quadrado cinza lógico
a prender as verdades.
a verdade uma prisão?
a liberdade na desrazão?

3.3.06

Praia

Na brisa branda da praia,
a linha reta desmontou-se em curvas.
Extremos, o preto e o branco
explodiram num sol de cores.
O momento mágico,
daquela vertigem única,
aconteceu à luz do dia.
Entre os passantes,
entre os produtos,
entre os protestos,
entrei em teu sorriso aberto.
Aberto e acolhedor,
mas tão acolhedor,
como uma praça repleta de crianças,
virgem e verdadeira,
a brotar do concreto duro e caótico
da torpeza urbana...
Acolhedor como
só sorrisos sabem ser.
***
Mulher faz-se menina,
amiga faz-se amante.
Assim como sinto teu perfume
sem poder tocá-lo,
assim pressinto tua essência
sem alcançar sabê-la.
Óculos escuros são teu véu,
marotos os olhos que mascaram.
Dize-me, qual é o nome do mistério
que desce até essa areia
e nos leva cantando até o alto?
Seu nome pode ser escrito
com as estéreis palavras do homem?
Ou só pode ser vislumbrado
na penumbra,
no crepúsculo,
na alvorada?
Sussurrado entre soluços,
entre volúpias,
entre danças sacras
e confissões desnudas?...
Revela-me teu nome,
ó mistério,
pois quero saber
quem me venda os olhos
e me conduz, bobo, pela mão...
***
Nesse espaço hesitante,
abraço a ti como certeza.
O menino, que ainda sou,
já não treme mais.
Deve ser o calor que ora faz.