29.10.05

Dia D

Todo dia é dia de
libertar-se das amarras
que nos prendem à brutal
mesquinhez quotidiana.
Todo dia é dia D.

Todo dia é dia de
desvencilhar-se das garras
da miséria e do mal,
que infestam a vida humana.
Todo dia é dia D.

Todo dia é dia de
esfregar sal nas feridas,
e sorrindo ou chorando
acordar mais uma vez.
Todo dia é dia D.

Todo dia é dia de
invadir as avenidas,
o vermelho atravessando;
atrever-se a própria tez.
Todo dia é dia D.

Todo dia é dia de
saber o gosto do mel
escondido nas entranhas
venenosas da sua flor.
Todo dia é dia D.

Todo dia é dia de
prostrado, culpar o céu
e lançar contra as montanhas
a voz da inefável dor.
Todo dia é dia D.

14.10.05

Verdades

Já passei por todas as verdades imagináveis
(inclusive as só por mim imaginadas)
Fitei a face de todas
E não achei uma sequer bonita.
Todas elas maquiadas como travestis espanhóis de bochechas ossudas
Para parecerem o que gostariam de ser.
Existe mais alguma?
Já não vimos todas?
Já não experimentamos o gosto azedo da sua inevitável imperfeição?
A ciência, a religião, a filosofia e a arte,
Para citar as mais nobres,
Não se mostraram todas corruptas?
O problema do homem é querer a verdade,
Mesmo que ela doa.
Mesmo que ele não a queira.
A MENTIRA APARECE-NOS MUITO MAIS REAL
Existe algum sentido na consideração da vasta totalidade dos fatos da história universal?
Então há mais sentido naquele décimo de segundo em que se atinge um forte orgasmo.

NÃO HÁ SENTIDO EM BUSCAR O SENTIDO DAS COISAS
(SOZINHO NUM QUARTO PEQUENO
Paredes com o rosto pálido
O CHEIRO ESTRANHAMENTE AGRADÁVEL DE GESSO
Um pequeno e puríssimo “diamante” limpa-se de TODA a poeira depositada)

9.10.05

vingança agridoce...

Negros olhos
Mas;
Não falo da íris,
E sim das olheiras.

Magro sorriso
Mas;
Não falo da gordura,
E sim da diminuta quantidade.

É assim que te vejo,
Dez anos depois.
Como uma estátua:
Não porque tens a forma bela,
Mas porque por dentro estás morta.
E o pior:
Sabes disso.
Eu o vejo na densidade
dos teus olhos negros.
(sempre soube quando mentias,
só não sabia quando falavas a verdade).

Mas o que é a verdade?
A verdade multiplamente teorizável dos filósofos?
Uma coisa é saber o que ela é,
Outra é senti-la nos teus lábios.
Quente.
Humana.
E sublime, embora condenada à imperfeição.

—Uma estátua de olhos negros.

Há dez anos atrás
Eu te queria.
Como o subnutrido quer um rodízio de pizza.
Como o bêbado quer uma última dose de Jack Daniel´s.
Como o paciente terminal quer as doces mentiras da sua mãe.
Assim.
Com ânsia.

Tiveste medo.
Eu também.
Ficaste com outro.
Fiquei sozinho,
E mudei de profissão:
Sou fotógrafo
(de um tipo especial).
E hoje, neste entardecer gris,
Fotografo teus olhos negros
De estátua eternamente infeliz.

Poa:11.11.99

grife

O meu poema é mais barato que os outros.
Bem em conta, bem acessível.
É um poema assim classe média.
Leve. Compre.
Não causará um rombo no orçamento familiar,
E sua satisfação é garantida.

É verdade, meu poema não é de grife...
Mas ele quebra um galho.
Não é assim um Pessoa, um Bandeira, um Camões...
Mas ainda assim serve para muitas coisas!
Por exemplo, comprando meu poema
Você poderá soluçar e lacrimejar várias noites seguidas,
Culpando a tudo e a todos...
Ele não levará você ao suicídio, claro...
—Mas ainda assim são garantidas muitas horas de sofrimento e angústia.

E ele não serve só para isso:
Quando você encontrar aquela pessoa especial
(que não se sabe por que mística razão gosta de poesia)
E quiser dizer-lhe tudo o que sente mas não sabe bem como,
Você pode usar meu poema também...
Talvez a pessoa não se apaixone tresloucadamente por você,
Não largue emprego, casa, família
E não suspenda demais restrições morais...
Mas com certeza ela sentirá muita simpatia por você,
Aceitará seu convite para um jantar e um cineminha,
E — quem o sabe, em certas pessoas o efeito mostrou-se maior,
Talvez até engatem um namoro de uns dois meses...

4.10.05

escorpião

vou ao extremo
extremista
penso tremo
vou e faço
psico-anarquista
dirigi embriagado
quebrei o braço
quebrei a lei
um ácido tomei
em drogas embebido
é minha libido
contra meu superego
eu não nego
sou rebelde sem causa
quando eu saio
dou uma pausa
na minha razão
bebo tudo desmaio
hospital injeção
extremista
forte estroboscópica
no meio da pista
movimentação
giroscópica
tum-tum coração
taquicardia
a testa sua fria
sou outro nada temo
quero espaço
penso tremo
vou e faço.

POA, 25/4/99

Papel

Eu trato o papel da mesma maneira que te trato:
com desprezo.
Sim, e nesse contraditório ato,
com desespero
eu busco cego o teu abraço.
Mas não sucedo.
Não me retrato.
Continuo dobrando, amassando e riscando o papel,
Porque vejo nele teus olhos cor-de-céu.

Às vezes, como um grafiteiro marginal
Picho obscenidades
Por sobre toda tua brancura virginal,
Tentando, com maldades,
Participar um pouco da tua pureza especial.
Mas não sucedo,
Não me retrato.
Continuo dobrando, amassando e riscando o papel,
Como isso amenizasse da minha vida o fel.

Finalmente, consigo perverter tua essência
E trazer-te ao chão comigo.
Abraçados, caímos juntos na indecência,
Da luz e das pessoas ao abrigo,
E é em vão que me pedes clemência.
Eis que enfim sucedo,
Mas não me retrato!
- Continuo dobrando, amassando e riscando teu coração,
Qual me desse prazer tal bizarra oração...

4/10/2005

minha menina

corina
é um nome lindo
eu estava indo
quando pensei:
corina
é um nome bizarro
eu estava no carro
corina
é uma mulher linda
era jovem ainda
parecia cocaína
porque era muito forte
minha atração
pela corina
eu tive sorte
ganhou meu coração
corina
anjo de carne e osso
profana e divina
eu no fundo do poço
dentes brancos
muito feminina
altos tamancos
corina
parecia heroína
parecia um vício
pensei no início:
corina
é um nome bizarro
eu estava no carro
hoje dirigindo
quando pensei:
corina
é um nome lindo
foi quando reparei
que eu estava sorrindo.
POA, 8/3/99

Cidade dos sonhos

No espaço livre da união eu me perco.
No espaço em que “eu” viro “nós”,
Em que meu olho é nosso olho,
E tua voz é nossa voz.

No espaço em que gememos
Acordes de prazer inefável.
No espaço em que morremos
Desse gozo insustentável.

Na cidade dos sonhos,
Da conjunção impossível,
Do sexo com Deus tornado carne,
Do nexo com Deus tornado crível.

Estamos completamente fora de nós,
E mesmo assim, estou inteiramente em ti,
Tanto, que todo teu ser me preenche:
O momento é mágico, o lugar é aqui.

Eu te beijo,
E no mundo inteiro só existe a tua boca.
Eu te sugo,
E no mundo inteiro só existe teu seio.
Eu gozo dentro ti,
e o mundo é tua boca e tua boca é teu seio e teu seio é ofegante e escaldante é envolvente e muito quente é perfumado e suado é duro e turbilhão e no teu espaço escuro eu encontro a salvação.

transa-elevador

portas de metal
cheiro de alumínio
luz cor de sal
clima de assassínio

branca muito branca
belos seios belas pernas
bela potranca
expressões ternas

vestido levantado
corpo desnudo
beijo abraçado
movimento mudo

êxtase frenético
alívio imediato
membro anti-ético
prazer do tato

mão espalmada
portas de metal
razão cegada
pele sabor sal

beijo tardio
olhar duvidoso
morno calafrio
templo do gozo

almas abandonadas
aperto no coração
portas cerradas
solidão solidão.
POA, 8/2/99

Estilo: 50 linhas livres

O sangue inchando os músculos.
Os movimentos repetidos.
O coração em pulsação.
O ar fluindo alegremente pelas vias respiratórias.

Onde está a poesia das pequenas coisas?
A poesia de viver,
De sentir o corpo em vida?

Está por aí, espalhada nos espaços invisíveis,
Nos momento irrecuperáveis,
Na nostalgia postiça que se tem através da arte de um gênio compassivo.

Frágil como só ela...
Frágil como só ela e a autoconfiança ilimitada
E a elevação do espírito às luzes das lâmpadas
(Ou às luzes das lâmpadas dos postes de estrelas distantes...)
Frágil como o encontro significativo das décadas de filosofia pura
E o orgasmo convulsivo do sexo grupal.
Mais frágil!
Talvez tão frágil,
Mas tão frágil,
Mas tão frágil mesmo,
Como só ela...
E também a ocorrência de um momento de criatividade sublime
Com o cano da pistola de outrem inserido na boca.

Ó poesia adolescente,
Não chores se teus óculos caíram no chão
E alguém passou por cima.
Logo encontraremos outro,
Se não igual, muito parecido,
que ficará muito melhor sobre teu nariz lindo esculpido pelos anjos mais amicíssimos Dele.
Não fiques brava com o capitalismo,
Nem com a música eletrônica, e nem com a partida de xadrez que perdeste.
E – isso é uma ordem – nunca ouses ficar brava com meu amor!,
Que ele nunca vai deixar de te queimar,
Ainda que possa, descontrolado, apertar rudemente teu pescoço,
Esbofetear tua pele de pêssego em conserva
E forçar a passagem estreita e proibida de teu esfíncter anal.

E nunca mais saia de um amor como quem lava as mãos.

Ei, vamos dançar um pouco?
Vamos brincar, cantar e dançar um pouquinho,
Assim com pequenos pulinhos, grandes sorrisos e apertos de mão ocasionais e sem sentido?
A gente contrata uma banda boa, com larga experiência em comemorações vãs,
Para nos animar até o nascer da nova manhã.
Sem bebida, que já estamos alegres sem motivos ou aditivos ou argumentos!
Subamos, pois, no topo de um prédio de mil e um andares!
De lá podemos espiar a hora secreta em que o sol e a lua fecham a porta do seu quarto,
E, ingenuamente, achando que nós não vamos desconfiar,
Falam um pouco sobre seu dia, dão algumas risadas e finalmente transam bem gostoso sem camisinha!

Agora o que eu mais queria era escrever um final apoteótico sem ponto sem vírgula uma coisa assim meio joàosinho trinta bem carnavalesca mas que mesmo assim fosse poética lírica filosófica e que pudesse misteriosamente resumir todos os eventos e emoções mais importantes da vida em três linhas mas meu Deus


portalegre, 27/10/01

Otoño

Otoño
Otoño
Otoño chega

É preciso repetir
É preciso martelar

Repetir é preciso
Martelar é martelar

Só o poema-martelo
Cai no seio da cabeça
Cheia de caca
Do caro consumidor


Outono...
Outono e folhas no chão...
Outono é folhas no chão...
Outono é folhas de centro numa revista de design alemã

Poema é mesa de centro
Na sala da sua cultura

Mas somente às vezes
Poema é martelo
Que cai em cheio
Na mesa de centro –
a cara mesa de centro da sua cultura,
da sua alta cultura
da sua alta costura,
cara fashion-victim

Poema é martelo
E martelar é preciso

poa:30,03,01

Metáfora

A lâmpada fluorescente está acesa.
A lâmpada emite luz branca.
A tinta das paredes é acrílica.
O ar condicionado está ligado no frio.

A temperatura ambiente é de 15 C.
A sala mede 15 m2.
Os ângulos são retos.
O silêncio é total.

As paredes não possuem janelas.
A porta está fechada.
A lâmpada emite luz branca.
Os ângulos são retos.

O ar condicionado está ligado no frio.
O puxador da porta é metálico.
A porta está fechada.
O ar condicionado é cor de creme claro.

A temperatura ambiente é de 15 C.
O volume da sala é de aproximadamente 40 m3.
A tinta das paredes é acrílica.
Os ângulos são retos.

O ar condicionado está ligado no frio.
Não há móveis na sala.
A lâmpada fluorescente está acesa.
A sala inteira tem o cheiro de lavanda.

O espelho está pendurado na parede do fundo.
O silêncio é total.
O espelho é quadrado.
O espelho é perfeitamente polido.

A moldura do espelho é prateada.
A umidade do ar é quase inexistente.
O silêncio é quadrado.
O espelho é total.

4:10:2005