4.10.05

Estilo: 50 linhas livres

O sangue inchando os músculos.
Os movimentos repetidos.
O coração em pulsação.
O ar fluindo alegremente pelas vias respiratórias.

Onde está a poesia das pequenas coisas?
A poesia de viver,
De sentir o corpo em vida?

Está por aí, espalhada nos espaços invisíveis,
Nos momento irrecuperáveis,
Na nostalgia postiça que se tem através da arte de um gênio compassivo.

Frágil como só ela...
Frágil como só ela e a autoconfiança ilimitada
E a elevação do espírito às luzes das lâmpadas
(Ou às luzes das lâmpadas dos postes de estrelas distantes...)
Frágil como o encontro significativo das décadas de filosofia pura
E o orgasmo convulsivo do sexo grupal.
Mais frágil!
Talvez tão frágil,
Mas tão frágil,
Mas tão frágil mesmo,
Como só ela...
E também a ocorrência de um momento de criatividade sublime
Com o cano da pistola de outrem inserido na boca.

Ó poesia adolescente,
Não chores se teus óculos caíram no chão
E alguém passou por cima.
Logo encontraremos outro,
Se não igual, muito parecido,
que ficará muito melhor sobre teu nariz lindo esculpido pelos anjos mais amicíssimos Dele.
Não fiques brava com o capitalismo,
Nem com a música eletrônica, e nem com a partida de xadrez que perdeste.
E – isso é uma ordem – nunca ouses ficar brava com meu amor!,
Que ele nunca vai deixar de te queimar,
Ainda que possa, descontrolado, apertar rudemente teu pescoço,
Esbofetear tua pele de pêssego em conserva
E forçar a passagem estreita e proibida de teu esfíncter anal.

E nunca mais saia de um amor como quem lava as mãos.

Ei, vamos dançar um pouco?
Vamos brincar, cantar e dançar um pouquinho,
Assim com pequenos pulinhos, grandes sorrisos e apertos de mão ocasionais e sem sentido?
A gente contrata uma banda boa, com larga experiência em comemorações vãs,
Para nos animar até o nascer da nova manhã.
Sem bebida, que já estamos alegres sem motivos ou aditivos ou argumentos!
Subamos, pois, no topo de um prédio de mil e um andares!
De lá podemos espiar a hora secreta em que o sol e a lua fecham a porta do seu quarto,
E, ingenuamente, achando que nós não vamos desconfiar,
Falam um pouco sobre seu dia, dão algumas risadas e finalmente transam bem gostoso sem camisinha!

Agora o que eu mais queria era escrever um final apoteótico sem ponto sem vírgula uma coisa assim meio joàosinho trinta bem carnavalesca mas que mesmo assim fosse poética lírica filosófica e que pudesse misteriosamente resumir todos os eventos e emoções mais importantes da vida em três linhas mas meu Deus


portalegre, 27/10/01