21.11.05
Boulevard of Broken Dreams
meia noite
meia noite e meia
no meio da noite
no boteco numa esquina
no meio do centro da cidade
escanteado
um homem mal
e desconcentrado
um casal
eles comem
batatas fritas com sal
eles bebem
bebida com blue curaçao
no canto do boteco
o homem só
pensa só
fuma só
e chegando em casa
deita só
no meio da cama
no meio do pó
só ele e a solidão
juntos
soldados
(no canto o cinzeiro
com cinzas extintas)
esse mesmo homem
vê o casal e lembra...
já foi meio de um casal
já foi meio de uma cama
acordando ao meio dia
sobre o seio de uma dama
dividindo de um isqueiro
a mesma chama
ainda lembra a membra
do ex-casal
relembra a manhã
quando se viram
da tarde quando
se amaram
se amarraram
(amor real é raro)
da noite quando
se cortaram
se quebraram
se secaram
ele ainda a amando
ela a mando
de outro amor
rubros lábios entreabertos
abraçaram-se balbuciando:
uma é a vida só
sou muita vida
para um homem só
sou muito uísque
para um copo só
sou muita corda
para apenas um nó
ora é meia noite
meia noite e meia
no meio da noite
no apê numa esquina
no canto do centro da cidade
ele tranca a porta
a duras penas
ata a corda
dá o último nó
na altura do gogó
suspira a última vez
por aquele salto alto...
e do alto do banco
um salto solto
apenas um solavanco
um soco sem dó
e é só
(Sobre o chão
Sobram sonhos quebrados)


