15.12.05

cinza

superfície cinza,
pálido azulejo.
paredes obstruem
débil desejo.

cárcere invisível,
angústia de verdade.
humor claro-escuro,
abismo de ansiedade.

lágrimas sublimam-se
em piso seco.
sangue como cal,
caminho como beco.

céu lá em fundo,
olhar desconhecido.
silêncio soturno,
de nada transido.

assim mais perto,
cada vez mais perto.
a planície cinza,
o infindo deserto.

11.12.05

paixão de domingo

Tudo leve
Tudo muito leve
Tudo assim azul claro,
lleevvee,
com...pre...gui...ça...,
devagar...
Tons de branco também
Camisa xadrez
Saia esvoaçante
Ele sorri,
Mas
Não violentamente,
não em rompantes de graça:
Sorri sutilmente,
Leve,
Aéreo,
Com o esfíncter relaxado,
Meio bobo
Ela também sorri,
Candidamente,
Sem pressa
Não estão drogados
Não estão bêbados:
Mas sim leves,
Azuis-anil,
Nefelibatas,
Mornos...

Eles estão ali
Sentados,
Mas não estão ali
Um filme
Um filme em slow-motion
Distenso
Sua existência é irreal
Pertence a outro mundo
Violão tocando acordes lerdos
idílio
assim meio bossa
assim bem cool

nesse instante
cessam as guerras
e as mortes
e todas as outras coisas
que machucam e doem
nesse instante
eles beijam-se
na abóbada anil
riscou-se uma estrela
tudo tão tranqüilo
tão leve
azul anil
um pássaro pia
e eles com tanto vagar
começam a voar
baixinho
levitar
sorridentes
sorrisos
entre os dentes
estrelas cadentes

nesse dia foram para casa levitando e incrivelmente felizes

3.12.05

Poema de amor

Não consigo escrever poemas de amor.



Meus poemas não falam de amor.



Meus poemas passam longe do amor.



Meus poemas gastam gasolina tomando um caminho mais longo e demorado quando voltam para casa, só para não passar na frente do amor.



Meus poemas encontram o amor no shopping, fingem que não o viram, e seguem caminhando nervosamente até entrar em uma loja de discos ou livros onde acabam não comprando nada.



Meus poemas às vezes têm reações estranhas.



Meus poemas – que surpresa! – escrevem poemas de amor, mas não contam para quase ninguém.



Meus poemas ficam em casa, no sábado à noite, escrevendo poemas de amor para ela, ao invés de ligar para ela e convidá-la para um cinema ou um chope. Meus poemas se deprimem por não ter coragem de ligar para ela, então eles choram escondidos, tomam umas doses de uísque, masturbam-se no banheiro pensando nela, vão dormir, e acordam tarde no outro dia, sem terem resolvido seus problemas.



Meus poemas geralmente amam uma pessoa que nunca vão ter.



Meus poemas já passaram muitas tardes na frente da tv, trocando de canal a cada dois minutos, comendo pães de queijo ou bolachas, desejando estar em outro lugar, fazendo outra coisa.



Meus poemas fogem do amor, apesar de querê-lo intensamente.



Inclusive – o cúmulo do absurdo metalingüístico! - meus poemas usam disfarces e metáforas (como um sujeito chamado Fernando Cintra) por não conseguirem falar de si mesmos.