3.3.06

Praia

Na brisa branda da praia,
a linha reta desmontou-se em curvas.
Extremos, o preto e o branco
explodiram num sol de cores.
O momento mágico,
daquela vertigem única,
aconteceu à luz do dia.
Entre os passantes,
entre os produtos,
entre os protestos,
entrei em teu sorriso aberto.
Aberto e acolhedor,
mas tão acolhedor,
como uma praça repleta de crianças,
virgem e verdadeira,
a brotar do concreto duro e caótico
da torpeza urbana...
Acolhedor como
só sorrisos sabem ser.
***
Mulher faz-se menina,
amiga faz-se amante.
Assim como sinto teu perfume
sem poder tocá-lo,
assim pressinto tua essência
sem alcançar sabê-la.
Óculos escuros são teu véu,
marotos os olhos que mascaram.
Dize-me, qual é o nome do mistério
que desce até essa areia
e nos leva cantando até o alto?
Seu nome pode ser escrito
com as estéreis palavras do homem?
Ou só pode ser vislumbrado
na penumbra,
no crepúsculo,
na alvorada?
Sussurrado entre soluços,
entre volúpias,
entre danças sacras
e confissões desnudas?...
Revela-me teu nome,
ó mistério,
pois quero saber
quem me venda os olhos
e me conduz, bobo, pela mão...
***
Nesse espaço hesitante,
abraço a ti como certeza.
O menino, que ainda sou,
já não treme mais.
Deve ser o calor que ora faz.