16.4.06

epifania cotidiana

bem almocei hoje.
comi pedras amarelas
de doçura insensível.
engoli cubos gelados,
cítricos, verdes.
fatiei folhas de alface
lambuzadas de azeite.
bem tomei o bom café,
preto e terreno.

após admirei
o branco, o azul.
a amplidão azul
vasta vasta vasta
como nosso mar do sul,
qual um anti-oceano,
oceano aéreo avoador,
espelhado, espraiado.
mosaico etéreo
de contra-pedras brancas,
irregulares
recifes errantes.

eis-me ora perdido
no espaço morno
duma epifania cotidiana.
o sol derretendo-se tal mel,
esbraseando-se nos lábios
luxuriantes de uma brasileira
inebriada de volúpia.
essa a epifania
viva, verde e verdadeira.
essa a epifania possível,
ungida com o perfume fácil
de um xampu barato.

de longe, uma igreja pálida,
templo calvo e estéril.
símbolo esdrúxulo
de uma época pré-científica.
(quis chorar mas não consegui)

já minha epifania
cética
antropocêntrica
racionalista
iluminista
positivista
tecnológica
globalizada
internética
- ainda uma epifania?

o concreto riscado
pelo cinzel abstrato.
o quadrado cinza lógico
a prender as verdades.
a verdade uma prisão?
a liberdade na desrazão?